segunda-feira, 28 de junho de 2010

A analítica da existência humana.

Heidegger critica a modernidade no seu pensar metafísico-que vê o homem como fundamentalmente racional e individualizado - homens concebidos como entidades e esvaziados em seu ser-com.Sua crítica a este modo de pensar foi instaurando uma nova possibilidade para se retomar o sentido da existência.
Assim, ele analisa este ente privilegiado que é o homem designado ser-aí/Dasein.Ente este que possui a capacidade de questionar sobre seu próprio ser; e que sua essência está em sua existência.
Existência esta que para Heidegger tem sentido diferente em relação à ontologia tradicional, onde o ser é ser a partir do momento que existe.A existência é determinação ontológica exclusiva do ser-aí.Ou seja, os entes que não são ser-aí, não existem.E o ser-aí é sempre uma possibilidade.Ser é na verdade optar por esta ou aquela possibilidade de ser.
“Só o homem existe. A pedra é, mas não existe”.

O pensar metafísico pareceu esquecer a diferença ontológica entre ser e tempo.Ser não é uma substância, um objeto, ser é apenas o modo daquilo que é. É uma possibilidade em aberto.

“O ser não pode ser precisado, objetivado, aprisionado num único sentido”.

O ser-no-mundo é constituinte do ser-aí.A relação homem-mundo se dá como unidade.Não há justaposição de um ente chamado ser-aí sobre outro chamado de mundo, ou de relação sujeito-objeto.
O mundo é uma totalidade de relações significativas, não sendo possível separá-lo do ser-aí ou vice-versa.

“Nós somos o mundo, a existência é uma totalidade”.

O ser-aí é jogado ao mundo em um contexto que determina sua entidade, mas não o determina como possibilidade.O ser-aí nunca é apenas entidade, mas sim uma projeção do ser.A ligação dos homens entre si e com o mundo é o que dá significado às coisas.Enquanto na metafísica, o ser está nas coisas nelas mesmas, na fenomenologia o ser de tudo o que existe está no estar sendo dos homens no mundo.Tudo é o que é em razão da existência humana.Aliás, a existência do ser-aí é sempre uma coexistência, o ser-aí jamais é substância fechada em si mesmo, ele é um “ser-com” porque não há sujeito sem mundo e não pode haver um “eu” isolado dos outros.
“Ser-com-os-outros” é estar ao lado dos outros, um igual diferente, mas caminhando com os outros e não isolado.Para Heidegger, ser-com-o-outro é originário, ontológico ao ser-humano. Ser humano é sempre ser ser-com-o-outro.Para a metafísica a coexistência seria resultado do encontro entre os sujeitos, para a fenomenologia a coexistência é condição ontológica do sujeito.Porém, este ser-no-mundo, na nossa vida cotidiana, acaba por afastar-se de ser si mesmo, caindo no modo de ser inautêntico, decadente e impróprio.Ou seja, distraído de si mesmo por tantas coisas que deve assumir o sujeito acaba caindo na ditadura do “impessoal”.
A existência, a facticidade e a decadência –modo impróprio e inautêntico de ser - tecem a estrutura totalitária originaria que Heidegger chama de cuidado.O homem é essencialmente cuidado.

“A temporalidade é o sentido do cuidado que é o ser-aí”.

Cuidado e tempo são uma unidade.A idéia de temporalidade tem a ver com a finitude do homem que está sempre envolto da possibilidade de morrer.

Os profissionais de saúde

Estes não são apenas os que cumprem um papel, a partir de algo esperado deles, mas também são humanos, seres-aí-no-mundo.Imersos em regras, normas e controles do trabalho cotidiano, os profissionais da saúde acabam por assumir um modo de ser inautêntico que se retrata por cumprir tarefas.Porém, de acordo com a perspectiva existencialista, ao ser-com-o-outro, as possibilidades de ser como os outros ou ser si próprio estão sempre em jogo para o homem, ao cuidar de seu ser e de outros.Assim, mesmo a existência inautêntica abre sempre a possibilidade da autenticidade, o resgate do ser, indo muito mais além da banalidade cotidiana.
Desta forma, os profissionais de saúde, sendo-no-mundo, agiriam profissionalmente além de regras e rotinas, escolheriam um agir profissional autêntico, ao se ver em seu próprio movimento de ser, que tantas vezes ficou imerso no cotidiano.
Percebendo sua existencialidade, podem sentir o vigor de seu próprio ser, situando-se no espaço de trabalho como possibilidade de ser que pode pensar o que ainda não foi pensado, criar, cuidar do outro não apenas através de técnicas, mas por si mesmo, em sua condição ontológica de ser cuidado.Agindo de modo próprio.
Nesse sentido esses profissionais vão além do que foi dado, além das técnicas, mas entendendo que em seu próprio fazer, eles são em sua condição ontológica de ser-com, cuidado.Fazendo valer uma relação de não dominação, mas de acolhimento.Contudo, esta relação só se faz possível quando o profissional se coloca como ser-no-mundo, compreendendo que enquanto ser-com-o-outro o paciente o constitui e ele constitui o outro, de modo originário.Tão importante quanto isto, é não esquecer a singularidade de cada um, o que faz cada profissional e cada paciente ser único; mantendo sempre uma distância que irá gerar uma futura aproximação e permitirá que haja um desvelamento de ambos, sem pré-julgamento.Isso é essencial para que não seja “construído” um profissional “moldado” em suas relações. É um acolher das inseguranças, incertezas, conflitos.

A pesquisa fenomenológica em saúde: algumas considerações

Um dos pontos principais desta pesquisa é contribuir para a reflexão acerca da existência humana, possibilitando um repensar sobre os modos de organização do trabalho, a relação com os pacientes e a formação humana dos profissionais de saúde, em uma lógica oposta ao modelo cartesiano; tendo em vista que é este modelo que impera na forma de atuar desses profissionais desprovidos do sentido de ser-excesso de objetivação com poucas possibilidades para despertar o ser-si-mesmo próprio do homem- pois o ser de tudo que existe está no estar sendo dos homens no mundo e não nas coisas em si como no pensar metafísico.
Nesta pesquisa não há um único método.O investigar abrange um todo, sendo orientado pelo homem em seu estar-sendo-no-mundo.Além disso, o pesquisador é co-participante, não há neutralidade, até porque só é possível interrogar aquilo do que fazemos parte, e o olhar do que interroga jamais é um olhar isolado e apenas dele, ao contrario, é um olhar do qual fazem parte aqueles com quem ele é no mundo.E os resultados avaliados jamais serão capazes de revelar uma totalidade,pois tudo é e sempre será uma possibilidade.

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